Retrato de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva
Referências Históricas · Independência e Primeiro Reinado

Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva

A voz da Constituinte de 1823

1773 · 1845

Relator do primeiro projeto de Constituição escrito por brasileiros, e o homem que preferiu quatro anos de prisão a pedir perdão ao rei.

Por que estudar Antônio Carlos de Andrada?

Origens e Formação

Antônio Carlos de Andrada em desenho de época
Antônio Carlos de Andrada em desenho de época

Foi batizado em Santos em 1º de novembro de 1773, o segundo dos três irmãos Andrada que entrariam para a história do Brasil. O registro é tardio e não fixa com segurança o dia do nascimento, o que é comum na documentação paroquial do período.

A família não tinha títulos de nobreza. Tinha instrução e cargos públicos. O pai, Bonifácio José de Andrada, foi escrivão da Junta da Real Fazenda e almoxarife da Fazenda Real, e a mãe, Maria Bárbara da Silva, sabia ler e escrever num tempo em que isso era raro entre as mulheres. O que os Andrada acumularam ao longo de gerações não foi patrimônio herdado, foi competência posta a serviço público.

Fez o percurso dos irmãos: primeiras letras em Santos, estudos secundários em São Paulo e depois Coimbra, onde se formou em Direito e Filosofia. Enquanto José Bonifácio seguia a ciência e Martim Francisco a matemática, ele seguiu o direito. Entre 1799 e 1800 traduziu obras técnicas e econômicas ligadas ao reformismo português, trabalho editorial que era, na prática, importação deliberada de conhecimento útil.

De volta ao Brasil, exerceu cargos jurídicos e militares em São Paulo, entre eles escrivão, auditor das tropas e juiz de fora de Santos. Foi uma carreira conflituosa, marcada por disputas de jurisdição e atritos com autoridades provinciais. Não era o magistrado dócil que a administração colonial preferia.

Pernambuco, 1817: a Prisão que Não Pediu Perdão

Por volta de 1815 tornou-se ouvidor da comarca de Olinda, e ali entrou em contato com o ambiente político pernambucano. Em março de 1817, quando a revolução irrompeu, aderiu ao governo republicano e participou de seus conselhos. Documentos por ele assinados e seu próprio auto de perguntas confirmam a atuação.

A revolta foi esmagada. Ele foi preso e permaneceu encarcerado até fevereiro de 1821, quase quatro anos, com interrogatório em Salvador entre 23 e 28 de novembro de 1818.

Foi nesse período que se deu o episódio que define o caráter do homem. Sugeriram-lhe que pedisse perdão ao rei, o caminho conhecido para abreviar a pena. A resposta ficou registrada pela tradição biográfica da família:

Perdão eu peço a Deus por meus pecados, do rei quero justiça!

A distinção que ele faz nessa frase é a distinção fundadora de qualquer ordem constitucional. Perdão é graça e depende da vontade de quem concede. Justiça é direito e independe dela. Quem pede perdão reconhece o poder como pessoal. Quem exige justiça reconhece o poder como submetido à lei. Seis anos depois, esse mesmo homem seria relator do primeiro projeto de Constituição brasileiro.

A cadeia não o transformou em revolucionário de ofício. Ele saiu dela para o Parlamento, e foi no Parlamento que cobrou a conta.

Lisboa: de Unionista a Dissidente

Sessão das Cortes de Lisboa, por Oscar Pereira da Silva, 1922
Sessão das Cortes de Lisboa, por Oscar Pereira da Silva, 1922

Solto em 1821, foi eleito deputado por São Paulo às Cortes de Lisboa e tornou-se uma das vozes mais combativas da representação brasileira.

Aqui está o ponto que a versão escolar da Independência costuma apagar. Ele não foi a Lisboa para separar o Brasil de Portugal. Defendeu, inicialmente, uma monarquia constitucional que abrangesse os dois lados do Atlântico, com autonomia brasileira e igualdade entre os reinos. A separação não era o projeto: era o desfecho do fracasso desse arranjo, quando ficou claro que as Cortes pretendiam reduzir o Brasil de volta à condição colonial.

Essa sequência importa porque descreve como convicções políticas sérias se formam. Não por fidelidade a uma bandeira desde o começo, mas por leitura da realidade à medida que ela se revela. Ele tentou o caminho institucional, esgotou-o e só então rompeu.

O rompimento foi formal: recusou-se a assinar e jurar a Constituição portuguesa e deixou Portugal clandestinamente, com outros deputados, em outubro de 1822. Chegou ao Rio de Janeiro em janeiro de 1823. Não estava no Ipiranga em setembro, e a página não vai fingir que estava. Sua contribuição à Independência foi outra, e veio depois.

1823: o Projeto de Constituição

Ata da primeira sessão da Assembleia Geral Constituinte, 3 de maio de 1823
Ata da primeira sessão da Assembleia Geral Constituinte, 3 de maio de 1823

Instalada a Assembleia Geral Constituinte em maio de 1823, Antônio Carlos foi eleito para a Comissão de Constituição em 5 de maio, em primeiro lugar, com 40 votos, contra 16 de José Bonifácio. Martim Francisco não integrou a comissão. Tornou-se relator e principal figura associada à redação do projeto.

Uma ressalva necessária, e que o próprio material de pesquisa exige: não existe "a Constituição de Antônio Carlos". O texto era obra de comissão, alterado em plenário. Ele foi o seu relator e o seu principal defensor na tribuna, o que já é bastante, e é diferente de ser autor solitário.

Entre os temas que sustentou está a liberdade religiosa como direito individual. Vale ler isso com as lentes de 1823 e não com as de hoje: não se tratava de igualdade plena entre cultos nem de separação entre Igreja e Estado, mas de reconhecer que a consciência de cada um não é matéria de polícia. Num país que teria religião oficial por mais de sessenta anos, era proposta avançada.

Sua posição também se moveu ao longo dos seis meses. No início defendeu a harmonia dos poderes e as prerrogativas monárquicas. Depois de julho, com a demissão dos irmãos do Ministério, passou à oposição ao governo. Deslocamento político real, num contexto que mudava depressa.

E ele não era porta-voz automático da família. Divergiu de Martim Francisco sobre a promulgação da Constituição sem sanção do imperador, e de José Bonifácio sobre sociedades secretas. Os três irmãos agiam juntos, não pensavam idêntico.

Depois da saída dos irmãos do Ministério, a corrente andradina passou a ter veículo próprio na imprensa, o jornal O Tamoyo. O vínculo político é seguro; a autoria de artigos específicos, publicados sem assinatura, não pode ser atribuída a nenhum dos três.

A Dissolução

A Cadeia Velha, sede da Constituinte de 1823, atual Palácio Tiradentes
A Cadeia Velha, sede da Constituinte, atual Palácio Tiradentes

O estopim veio do caso David Pamplona, boticário agredido por oficiais portugueses. Na sessão de 10 de novembro de 1823, Antônio Carlos defendeu investigação parlamentar e medidas contra os agressores. A dureza de sua linguagem foi imediatamente usada pelos adversários para acusá-lo de incitação.

No dia 11 propôs sessão permanente, e diante das tropas que cercavam o edifício sustentou que a Assembleia estava deliberando sob coação. É a formulação exata do problema: um parlamento cercado não delibera, obedece. Dizer isso em voz alta, com os soldados do lado de fora, foi o último ato constitucional daquela Assembleia.

Às treze horas de 12 de novembro veio o decreto de dissolução, sob pressão militar. Ele foi preso à saída, junto com os irmãos. A deportação foi decisão posterior: a charrua Lucônia partiu do Rio de Janeiro em 20 de novembro, com destino a Le Havre.

Passaria quase seis anos no exílio francês, boa parte deles enfrentando as autoridades locais, que tentavam afastá-los da costa, e a suspeita de que sua correspondência era interceptada. Foi ali que os três produziram seus textos de autodefesa, entre eles a Refutação das calúnias. São documentos valiosos, e é preciso lê-los pelo que são: a versão dos próprios irmãos sobre si mesmos.

O projeto que ele relatou nunca foi promulgado. Mas a Constituição de 1824, outorgada por Dom Pedro I meses depois de mandar prender e exilar os seus autores, reaproveitou parte substancial das soluções ali construídas. Não foi cópia: houve continuidades e houve mudanças de peso, sobretudo na posição do imperador. Ainda assim, a lição para qualquer movimento político sério permanece. Os Andrada perderam o poder, a liberdade e o país por seis anos. O trabalho que fizeram continuou governando o Brasil sem eles.

O Retorno e a Maioridade

Voltou em 1828. O retorno não encerrou a perseguição: apresentou-se às autoridades, foi preso e só então absolvido, por acórdão da Relação do Rio de 6 de setembro de 1828, segundo transcrição publicada em 1874.

Recuperou espaço parlamentar ao longo da Regência, período de revoltas provinciais e risco real de fragmentação do território. Em 1840 apresentou o projeto que declarou Dom Pedro II maior, aprovado em 22 de julho. Integrou e conduziu a deputação que levou a decisão ao imperador, assinou a representação com Martim Francisco e tornou-se ministro do Império em 24 de julho.

A Maioridade não foi obra de um homem, foi coalizão ampla. Mas o instrumento jurídico que a viabilizou saiu da mão dele, e é isso que a página registra: outra vez, o mesmo talento de converter necessidade política em texto que produz efeito.

Foi eleito senador por Pernambuco em 1845, a província que o havia levado à prisão vinte e oito anos antes, e morreu no Rio de Janeiro em 5 de dezembro do mesmo ano, pouco depois de tomar posse.

Legado

Busto de Antônio Carlos, acervo do Museu Mariano Procópio
Busto de Antônio Carlos, acervo do Museu Mariano Procópio

A história guardou José Bonifácio como o Patriarca e reservou a Antônio Carlos o papel menor de orador, como se eloquência fosse talento decorativo. É uma injustiça de arquivo. O que ele fez foi o trabalho mais difícil de uma fundação nacional: transformar princípio em artigo, e artigo em instituição que funciona.

Seu liberalismo foi constitucional e monárquico, e era socialmente limitado pela ordem escravista e censitária do seu tempo. Registrar isso não diminui o personagem, situa-o. Homens públicos operam dentro dos limites da sua época, e a medida do valor deles é o quanto empurraram esses limites, não a distância que os separa dos nossos.

Para um movimento que se propõe a formar quadros, ele é o exemplo de uma competência específica e rara. Não a de mobilizar multidões, mas a de escrever a regra, defendê-la no debate e fazê-la sobreviver a quem a escreveu. Um país não se constrói só com quem tem visão. Precisa também de quem saiba redigir.

Dois Antônio Carlos, a mesma família

O nome se repete na história do Brasil e a confusão é frequente. O Antônio Carlos desta página, o relator da Constituinte, viveu de 1773 a 1845. Já Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, presidente de Minas Gerais e articulador da Revolução de 1930, viveu de 1870 a 1946 e foi o quarto da família a levar o nome.

Não é coincidência: os dois são da mesma linhagem. Martim Francisco casou-se com Gabriela Frederica, filha de José Bonifácio, de modo que o presidente de Minas é neto de Martim Francisco e, em relação a José Bonifácio, ao mesmo tempo sobrinho-neto pela linha do avô e bisneto pela linha da avó.

Galeria

Antônio Carlos de Andrada, pintura colorizada
Antônio Carlos de Andrada, pintura colorizada
Antônio Carlos de Andrada, retrato colorizado
Antônio Carlos de Andrada, retrato colorizado
Antônio Carlos de Andrada, quadro colorizado
Antônio Carlos de Andrada, quadro colorizado
Antônio Carlos de Andrada, quadro
Antônio Carlos de Andrada, quadro
Antônio Carlos de Andrada, retrato colorizado
Antônio Carlos de Andrada, retrato colorizado
Antônio Carlos de Andrada, desenho colorizado
Antônio Carlos de Andrada, desenho colorizado
Busto de Antônio Carlos, Museu Mariano Procópio
Busto de Antônio Carlos, Museu Mariano Procópio
Ata da primeira sessão da Constituinte, 3 de maio de 1823
Ata da primeira sessão da Constituinte, 3 de maio de 1823
Sessão das Cortes de Lisboa, Oscar Pereira da Silva, 1922
Sessão das Cortes de Lisboa, Oscar Pereira da Silva, 1922
Cadeia Velha, atual Palácio Tiradentes, circa 1920
Cadeia Velha, atual Palácio Tiradentes, circa 1920

Linha do Tempo

1773

Batizado em Santos, em 1º de novembro.

1817

Ouvidor de Olinda, adere ao governo republicano da Revolução Pernambucana. É preso.

1821

Solto em fevereiro. É eleito deputado por São Paulo às Cortes de Lisboa.

1822

Recusa jurar a Constituição portuguesa e deixa Portugal clandestinamente, em outubro.

1823

Chega ao Rio em janeiro. Eleito em primeiro lugar para a Comissão de Constituição, em 5 de maio, com 40 votos.

1823

Relator do projeto de Constituição. A Assembleia é dissolvida em 12 de novembro. É preso e deportado.

1828

Retorna ao Brasil, é preso e absolvido por acórdão da Relação do Rio em 6 de setembro.

1840

Autor do projeto que declara Dom Pedro II maior, aprovado em 22 de julho. Ministro do Império em 24 de julho.

1845

Eleito senador por Pernambuco. Morre no Rio de Janeiro em 5 de dezembro.

Consultar as 5 referências utilizadas
  1. SOUSA, Alberto. Os Andradas, vols. I a III. São Paulo: Typographia Piratininga, 1922.
  2. SOUSA, Octávio Tarquínio de. História dos Fundadores do Império do Brasil, vol. I: José Bonifácio. 2ª ed. Brasília: Senado Federal, 2024 (original de 1957).
  3. MENCK, José Theodoro Mascarenhas. 1823: a Constituinte interrompida. Brasília: Câmara dos Deputados, 2023.
  4. ANDRADA, Lafayette Luiz Doorgal de. Antônio Carlos: herói maior que a própria fama. Brasília: Câmara dos Deputados, 2023.
  5. Cartas Andradinas: correspondência particular de José Bonifácio, Martim Francisco e Antônio Carlos dirigida a Antonio de Menezes Vasconcelos de Drummond.