Retrato de José Bonifácio de Andrada e Silva
Referências Históricas · Independência e Primeiro Reinado

José Bonifácio de Andrada e Silva

Patriarca da Independência

13 de junho de 1763 · 6 de abril de 1838

Cientista e estadista, articulou a Independência e desenhou um projeto de nação que o país levaria mais de um século para retomar.

Por que estudar José Bonifácio?

Origens e Formação

José Bonifácio em retrato de época
José Bonifácio em retrato de época

A família chegou a Santos no fim do século XVII, com José Ribeiro de Andrada, nascido em 1678 na região de Cabeceira de Basto, no Minho português. Em duas gerações estava estabelecida: pelo recenseamento de 1776, Bonifácio José de Andrada, pai do futuro Patriarca, era o segundo homem mais rico da vila, e acumulou ao longo da vida os cargos de escrivão da Junta da Real Fazenda, almoxarife da Fazenda Real e coronel do Estado-Maior do Regimento de Dragões.2

A mãe, Maria Bárbara da Silva, sabia ler e escrever, o que era raro entre mulheres daquele tempo e lugar. O casal teve nove filhos. Três deles entrariam para a história do país.2

José Bonifácio, o mais velho dos três, nasceu em 13 de junho de 1763. Antônio Carlos veio dez anos depois, e Martim Francisco em 1775.1 2

O detalhe da fortuna paterna não é ornamento biográfico. Ele explica por que os três puderam atravessar o Atlântico para estudar em Coimbra, coisa reservada a pouquíssimas famílias da colônia. A elite intelectual que faria a Independência formou-se, em boa medida, dentro da própria universidade portuguesa, o que ajuda a entender por que a ruptura de 1822 foi conduzida por gente que conhecia por dentro o Estado do qual se separava.

O Cientista antes do Estadista

Retrato do Patriarca da Independência
Retrato do Patriarca da Independência

Antes de ser estadista, José Bonifácio foi um cientista europeu de reputação estabelecida. Passou cerca de trinta anos fora do Brasil, e não como estudante prolongado: como pesquisador em atividade.1

Formou-se em Coimbra e seguiu para uma longa viagem de estudos pela Europa, percorrendo minas, laboratórios e academias. Dedicou-se à mineralogia e à metalurgia, descreveu minerais até então desconhecidos e teve seu trabalho reconhecido pela Academia Real das Ciências de Lisboa. Chegou a intendente-geral das minas de Portugal, cargo técnico de responsabilidade sobre a produção mineral do reino.1

Esse currículo importa para entender o que ele tentou fazer no Brasil depois. Um homem formado na ciência aplicada tende a enxergar país como sistema, com recursos, gargalos e prazos. Quando voltou, em 1819, trouxe consigo uma noção de administração pública que quase não existia por aqui: a de que governar envolve inventário, medição e planejamento.

Ele voltou aos cinquenta e seis anos, idade em que a maioria dos homens de sua condição se recolhia. Tinha diante de si um país que ainda não existia como Estado, e passaria os quatro anos seguintes tentando construí-lo.

A Independência como Obra Política

José Bonifácio e a imperatriz Leopoldina
José Bonifácio e a imperatriz Leopoldina

A convergência começou em São Paulo. Com a Revolução Liberal do Porto, em 1820, e o retorno de dom João VI a Portugal no ano seguinte, José Bonifácio e Martim Francisco lideraram o governo provisório paulista, organizado em junho de 1821.2 3

Foi de lá que partiu, em dezembro daquele ano, a Representação que pedia ao príncipe regente que desobedecesse às Cortes de Lisboa e permanecesse no Brasil. O episódio desembocou, em janeiro de 1822, no Fico.2

Existe disputa historiográfica sobre quem de fato moveu aquela decisão. Parte dos autores atribui o protagonismo ao Rio de Janeiro e ao grupo de Joaquim Gonçalves Ledo. Outros sustentam, com base documental, que a iniciativa partiu de São Paulo e de José Bonifácio nominalmente. O próprio dom Pedro, em proclamação de setembro de 1822 dirigida aos paulistas, reconheceu que foi aquela província que primeiro lhe deu a conhecer o sistema das Cortes de Lisboa.2

Como ministro do Reino e Estrangeiros, José Bonifácio manteve o príncipe ligado à causa brasileira enquanto as Cortes tentavam reduzir a autonomia do país, administrou tensões entre grupos políticos rivais e trabalhou para que a separação ocorresse sem fragmentar o território.1 2

Esse último ponto merece atenção de quem estuda formação de Estados. A América espanhola, que se emancipou no mesmo período, saiu do processo dividida em mais de uma dezena de países. O Brasil saiu inteiro. Não foi acidente geográfico, foi resultado de escolhas políticas tomadas por gente que tinha a unidade territorial como objetivo declarado.

O Projeto de Nação

Decreto que o nomeia tutor dos príncipes do Brasil
Decreto que o nomeia tutor dos príncipes do Brasil

O que distingue José Bonifácio de outros protagonistas de 1822 é que ele tinha um programa escrito. Os demais tinham posição sobre a separação; ele tinha um plano para o que viria depois dela.

Em memória apresentada à futura Assembleia Constituinte, propôs a construção de uma nova capital no interior do país, longe do litoral e das pressões externas, e sugeriu para ela um nome que o Brasil só realizaria cento e trinta e sete anos depois: Brasília.2

Defendeu a exploração racional dos recursos naturais numa época em que ninguém falava nisso, a educação pública como base de qualquer projeto nacional, e a integração do território por vias de comunicação. Tratava ciência, economia e administração como partes de um mesmo programa, o que era invulgar entre políticos de sua geração.1 2

O ponto mais duro de sua plataforma foi a escravidão. Em representação dirigida à Assembleia Constituinte, defendeu a extinção gradual do tráfico e do trabalho escravo, argumentando que uma nação construída sobre escravos não teria povo, e sim proprietários e propriedade. Era posição de altíssimo custo político num país cuja economia inteira dependia daquele regime, e ela ajuda a explicar quantos inimigos ele acumulou.4

O programa não foi executado. Isso não o torna irrelevante, torna-o um caso de estudo sobre a distância entre o que uma elite dirigente consegue formular e o que consegue realizar.

A Queda, o Exílio e o Retorno

José Bonifácio de Andrada e Silva
José Bonifácio de Andrada e Silva

O auge durou pouco mais de um ano. Dom Pedro demitiu José Bonifácio e Martim Francisco do Ministério em julho de 1823, e o desfecho veio na noite de 11 para 12 de novembro daquele ano, que ficou conhecida como a Noite da Agonia.3

Com tropas cercando o Palácio de São Cristóvão, chegou o decreto que dissolvia a Constituinte. Os Anais preservaram o diálogo. Martim Francisco ainda tentou resistir, dizendo que o lugar deles era ali. Antônio Carlos encerrou a questão com uma frase seca: já não somos Assembleia.3

José Bonifácio foi preso em casa, no meio do jantar, e pediu ao oficial que o buscava que aguardasse, oferecendo-lhe alguma coisa para comer. A serenidade do gesto ficou registrada.2 5

Embarcados numa velha charrua chamada Luconia, os três irmãos amotinaram-se a bordo, prenderam o comandante e desviaram a rota para o porto de Vigo, na Espanha. Seguiram para o exílio em Bordéus e Talence, na França, onde José Bonifácio permaneceria até 1829.2

O retorno teve um capítulo improvável. Depois da abdicação de dom Pedro I, em 1831, foi ele o escolhido para tutor dos príncipes, entre eles o menino que se tornaria dom Pedro II. O homem que o pai mandara prender e exilar recebeu a educação do filho. Morreu em 1838, em Niterói.1 2

Legado

Estátua de José Bonifácio em Nova York
Estátua de José Bonifácio em Nova York

A alcunha de Patriarca da Independência costuma ser lida como elogio protocolar. Ela é mais precisa do que parece, porque descreve uma função e não uma honraria: ele foi quem deu forma institucional a um processo que poderia ter terminado em fragmentação ou em recolonização.1

O monumento erguido em Santos no centenário da Independência, em 1922, homenageia os irmãos Andrada como grupo, e não um homem só. A cidade reconheceu ali que o que houve não foi um grande nome, e sim uma articulação familiar com divisão de tarefas.2

Para quem pensa o Brasil hoje, a trajetória dele oferece três pontos que resistem ao tempo. O primeiro é que competência técnica e ação política podem ocupar a mesma biografia, e que quem entende de mineralogia, contas e administração governa diferente de quem só entende de retórica.

O segundo é que a unidade territorial brasileira foi construção deliberada, e não herança automática. Quem imagina que o tamanho do país é dado da natureza desconhece o esforço que custou mantê-lo inteiro em 1822.

O terceiro é o mais desconfortável. José Bonifácio formulou, ainda no século XIX, um programa de educação pública, uso racional de recursos e fim do trabalho escravo. O país levou mais de um século para discutir seriamente qualquer um desses pontos, e ainda não resolveu todos. A distância entre o que ele propôs e o que foi feito é, ela própria, uma medida do problema brasileiro.

Galeria

José Bonifácio de Andrada e Silva
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Retrato por Benedito Calixto de Jesus
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José Bonifácio em retrato de época
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Retrato do Patriarca da Independência
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José Bonifácio de Andrada e Silva
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José Bonifácio e a imperatriz Leopoldina
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Decreto que o nomeia tutor dos príncipes do Brasil
Decreto que o nomeia tutor dos príncipes do Brasil
Estátua no Monumento à Independência, São Paulo
Estátua no Monumento à Independência, São Paulo
Estátua no Rio de Janeiro
Estátua no Rio de Janeiro
Estátua em Nova York
Estátua em Nova York

Linha do Tempo

1763

Nascimento em Santos, São Paulo, em 13 de junho.

1783

Parte para Portugal. Ingressa na Universidade de Coimbra.

1790

Inicia viagem científica pela Europa. Estuda mineralologia em vários países.

1800

Nomeado intendente geral das minas e metais do reino de Portugal.

1819

Retorna ao Brasil após 36 anos na Europa.

1822

Assume o Ministério do Reino. Articula o Fico e a Independência do Brasil.

1823

Apresenta projeto de abolição gradual da escravidão. É exilado após conflito com Dom Pedro I.

1831

Retorna ao Brasil após a abdicação de Dom Pedro I. É nomeado tutor de Dom Pedro II.

1833

Afastado da tutoria por pressões políticas.

1838

Falecimento em Niterói em 6 de abril, aos 74 anos.

Consultar as 5 referências utilizadas
  1. SOUSA, Octávio Tarquínio de. História dos Fundadores do Império do Brasil, vol. I: José Bonifácio. 2ª ed. Brasília: Senado Federal, 2024 (original de 1957).
  2. SOUSA, Alberto. Os Andradas, vols. I a III. São Paulo: Typographia Piratininga, 1922.
  3. MENCK, José Theodoro Mascarenhas. 1823: a Constituinte interrompida. Brasília: Câmara dos Deputados, 2023.
  4. ANDRADA E SILVA, José Bonifácio de. Representação à Assembleia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil sobre a escravatura, 1825.
  5. Cartas Andradinas: correspondência particular de José Bonifácio, Martim Francisco e Antônio Carlos dirigida a Antonio de Menezes Vasconcelos de Drummond.