Retrato do marechal Cândido Mariano da Silva Rondon
Referências Históricas · República

Cândido Mariano da Silva Rondon

Marechal, sertanista e indigenista

5 de maio de 1865 · 19 de janeiro de 1958

Integrou o território pelo telégrafo, organizou o Serviço de Proteção aos Índios e percorreu as fronteiras do país das Guianas à Argentina.

Por que estudar o Marechal Rondon?

Apresentação

Rondon em uniforme de marechal
Rondon em uniforme de marechal

Entre 1890 e 1930, Cândido Mariano da Silva Rondon percorreu a pé, a cavalo e de canoa uma extensão de território que hoje corresponde a boa parte do Centro-Oeste e da Amazônia ocidental. Instalou 4.502 quilômetros de linha telegráfica em Mato Grosso e levantou 50 mil quilômetros quadrados entre os rios Juruena e Madeira.1

Fez isso comandando homens armados, em território ocupado por povos que jamais haviam tratado com o Estado brasileiro, sem que se registrasse sob seu comando um único indígena morto por sua tropa.2

Para quem pensa o Brasil, a trajetória dele reúne três problemas que continuam abertos: como integrar um território de dimensão continental, como colocar ciência a serviço do Estado, e até onde vai o direito do Estado de agir sobre quem já estava aqui.

Ele respondeu às três de forma prática, com orçamento, tropa e prazo, e não em tese.

Origens e Formação

Rondon jovem na Amazônia, antes de 1891
Rondon jovem na Amazônia, antes de 1891

Nasceu em Mimoso, no Pantanal mato-grossense, em 1865, enquanto tropas paraguaias avançavam a cerca de cinquenta quilômetros dali. Ficou órfão de pai antes de completar um ano e de mãe aos dois anos e meio.2

A mãe, Claudina Maria de Freitas Evangelista, descendia de bororos e terenas. Criado pelo avô materno e por uma tia-avó, o menino cresceu ouvindo bororo e terena em casa, junto com o português.2

Esse detalhe deixa de ser anedota quando se observa o que ele fez depois. Quarenta anos mais tarde, ao entrar desarmado em aldeias nunca contatadas, já sabia por experiência própria que aquelas pessoas tinham nome para si mesmas, gramática, parentesco e cosmologia. Não precisou ser convencido disso por antropólogo nenhum.

A instrução disponível em Mimoso ia até o primeiro ano, dada por um veterano da Guerra do Paraguai. Aos oito anos foi mandado a Cuiabá, formou-se no Liceu Cuiabano em 1881 e, em novembro daquele ano, assentou praça com destino à Escola Militar da Praia Vermelha.3

No Rio encontrou Benjamin Constant e o positivismo, que adotou como credo pessoal e manteve até morrer. A doutrina lhe deu duas coisas que marcariam sua carreira: um critério de valor baseado em competência técnica e dever moral, em vez de nascimento, e a recusa de cargos eletivos, que ele cumpriu a vida inteira.2

O Telégrafo como Projeto de Estado

Rondon junto ao instrumento de campo
Rondon junto ao instrumento de campo

Rondon chamava as linhas telegráficas de sondas do progresso. A expressão diz o que ele tinha em mente: o fio de cobre não era o objetivo, era o instrumento.1

O Brasil da virada do século era um país que não se comunicava consigo mesmo. Uma ordem do Rio de Janeiro levava semanas para chegar a Cuiabá, e meses para alcançar o noroeste amazônico. Um território sem comunicação não é governado, é apenas reivindicado no mapa.

Entre 1891 e 1898 ele trabalhou na linha que ligaria Mato Grosso a Goiás. Entre 1900 e 1906, na que ligou Cuiabá a Corumbá. Em 1907 recebeu o comando da obra maior, a Comissão Construtora de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, autorizada pela lei 1.617 de 30 de dezembro de 1906.1

O adjetivo estratégicas no nome oficial não era ornamento. Aquelas linhas seguiam em direção à fronteira noroeste, região onde o Brasil tinha presença precária e vizinhos ativos. Comunicação, ali, era condição de soberania.

O trabalho custou caro. Em relatório sobre os serviços executados até 1910, Rondon registrou a morte de vinte homens. A documentação interna do Escritório Central aponta número maior, e a historiadora Mirian Rejane Guimarães Ferreira reuniu as listas nominais em dissertação defendida na Universidade Federal de Mato Grosso.4

A Comissão Rondon e a Ciência Nacional

Integrantes da Comissão Rondon
Integrantes da Comissão Rondon

O que distingue a Comissão Rondon de uma obra de engenharia comum é o que ela decidiu fazer além do contrato. A lei mandava instalar telégrafo. Ele resolveu que, por onde a linha passasse, passaria também o inventário do país.5

A Comissão saiu a campo com engenheiros, telegrafistas, médicos, botânicos, zoólogos, geólogos, astrônomos, etnógrafos e cinegrafistas. Cada seção produzia relatório, e cada relatório era publicado. Ao todo foram 110 relatórios científicos, dos quais 86 seriam reunidos e digitalizados quase um século depois, sob o título O Brasil pelos Brasileiros.5

O título dado à coletânea resume a intenção original. Até então, o interior brasileiro havia sido descrito sobretudo por naturalistas estrangeiros, que publicavam na Europa e levavam as coleções consigo. Ali, pela primeira vez, o inventário do território era feito por brasileiros, publicado no Brasil, e apresentado à comunidade científica internacional em condições de igualdade.

Espécies novas foram descritas. Rios inteiros entraram na cartografia. Os filmes e as fotografias produzidos em campo estão entre os primeiros registros em movimento de povos indígenas feitos no país.5

Há uma lição de política pública nisso. Rondon converteu uma obra de infraestrutura em programa nacional de pesquisa sem pedir orçamento novo, apenas exigindo que quem já estava em campo registrasse o que via. Estado que anota o que faz produz conhecimento; Estado que só executa produz apenas o resultado imediato.

A Doutrina do Contato

Rondon em contato pacífico com povos indígenas
Rondon em contato pacífico com povos indígenas

Em 1907, durante o reconhecimento do rio Juruena, Rondon foi alvo de flechas. Uma delas passou rente à nuca, outra parou num furo da bandoleira de couro de sua espingarda e está hoje no Museu Nacional. Ele deu dois tiros para o alto, os índios fugiram, e seus companheiros quiseram persegui-los.3

Ele proibiu. Registrou depois que era fiel ao programa de só entrar no sertão com a paz e jamais com a guerra, e explicou a razão em uma frase que vale por toda a política que veio depois: os índios estavam defendendo o que lhes pertencia.3

Quando o governo criou o Serviço de Proteção aos Índios, pelo Decreto nº 8.072 de 20 de junho de 1910, e entregou a ele a organização dos trabalhos, aquela regra de campo virou lema oficial da repartição.3 5

Morrer se preciso for, matar nunca.

O que estava sendo escrito ali é mais raro do que parece. Um Estado em expansão territorial estabeleceu, por decreto e no próprio papel timbrado, um limite moral à sua ação, e esse limite era desfavorável a ele mesmo. Não se tratava de proibir violência de terceiros, e sim a dos próprios agentes públicos.

O modelo tem crítica consistente hoje, e ela precisa ser dita. O SPI operava sob lógica de tutela e integração, tratava o indígena como filho menor da pátria e pressupunha que aqueles povos deveriam ser incorporados à sociedade nacional. A antropologia posterior desmontou esse pressuposto, e a própria instituição se degradaria a ponto de exigir extinção décadas depois.1

Nada disso apaga o que representou, em 1910, um país de quatro séculos de expedição punitiva declarar que matar índio estava proibido a quem agisse em seu nome.

A Expedição Roosevelt-Rondon

Theodore Roosevelt e o marechal Rondon
Theodore Roosevelt e o marechal Rondon

Em 1913 e 1914, Rondon codirigiu com Theodore Roosevelt a expedição que desceu o rio da Dúvida, curso d'água de quase 1.600 quilômetros cujo trajeto e destino ninguém conhecia. A viagem custou três mortes e quase matou o ex-presidente americano.2

O episódio que mais interessa não envolve corredeira nem doença. Um dos remadores assassinou o cabo Paixão e fugiu para a mata. Roosevelt exigiu que mandassem homens para prendê-lo e matá-lo. Rondon recusou, lembrando que o código brasileiro não previa pena de morte, e resumiu a posição dizendo que no Brasil quem comete crime é julgado, e não assassinado.2

Vale medir as condições. Estavam no meio da floresta, a centenas de quilômetros de qualquer autoridade civil, com um homicida foragido e uma expedição à beira do colapso. Havia todo motivo prático para ceder, e a garantia de que ninguém saberia. Ele manteve a lei.

A recusa de matar, que aplicava a indígenas armados de arco, valia também para um assassino de sua própria tropa. É isso que transforma um lema em doutrina.

O rio recebeu o nome de Roosevelt. A expedição projetou internacionalmente o trabalho da Comissão e rendeu material científico estudado até hoje.2

Fronteiras e Soberania

Marco do Morro da Boa Vista, na fronteira Brasil-Bolívia
Marco do Morro da Boa Vista, na fronteira Brasil-Bolívia

Concluída a linha em 1915, Rondon tinha cinquenta anos e mais quinze de trabalho de campo pela frente. Foi promovido a general em 1919, dirigiu obras contra a seca no Nordeste e comandou as forças em operações no Paraná e em Santa Catarina, na campanha de Catanduvas, entre 1924 e 1925.1 2

Entre 1927 e 1930 conduziu a Inspeção de Fronteiras, em três campanhas, percorrendo e verificando os limites do Brasil das Guianas à Argentina.1

Tinha sessenta e dois anos quando começou. A tarefa consistia em ir fisicamente até os marcos de fronteira, conferir posição, estado de conservação e correspondência com os tratados. Um país só controla o que visita.

A mesma preocupação aparece em outra decisão dele. Como diretor do SPI, negou mais de uma vez autorização e apoio material a expedições estrangeiras financiadas pela Real Sociedade Geográfica de Londres, alegando que representavam violação desnecessária da soberania dos índios e repetiam levantamentos que brasileiros já haviam feito. A recusa lhe rendeu antipatia duradoura no meio explorador europeu.2

Um país periférico dizendo não à instituição científica mais prestigiosa do império britânico, em nome de soberania sobre o próprio território e sobre a própria produção de conhecimento, é episódio que raramente aparece nos manuais.

Legado

Cédula de mil cruzeiros com a efígie de Rondon, 1990
Cédula de mil cruzeiros com a efígie de Rondon, 1990

Rondon foi indicado mais de uma vez ao Prêmio Nobel da Paz. Albert Einstein o indicou em 1925, durante visita ao Brasil, impressionado com a categoria estranha a que aquele homem pertencia: um general pacifista.1 2

Recebeu a medalha Livingstone da Sociedade Geográfica de Nova York, e o Congresso lhe concedeu o bastão de marechal em 1955, aos noventa anos. Morreu em janeiro de 1958.1

O território que ele percorreu virou estado com seu nome, Rondônia, a única unidade da federação brasileira batizada com nome de pessoa. O 5 de maio, data de nascimento que ele mesmo escolheu entre três possíveis, é o Dia Nacional das Comunicações.2

Para o pensamento sobre o Brasil, sua trajetória sustenta quatro pontos.

Integração territorial exige obra física e presença permanente, e não declaração. Ele levou quarenta anos fazendo isso com orçamento apertado e tropa reduzida.

Ciência é função de Estado. A Comissão produziu 110 relatórios porque alguém decidiu que registrar fazia parte do trabalho.

Soberania se exerce inclusive sobre a produção de conhecimento a respeito do próprio país, e isso às vezes significa dizer não a quem tem mais prestígio.

E poder estatal precisa de limite declarado. Um Estado que estabelece por escrito o que não fará, mesmo quando teria força para fazer, é mais forte, e não mais fraco.

Galeria

Cândido Mariano da Silva Rondon, por volta de 1910
Cândido Mariano da Silva Rondon, por volta de 1910
Rondon em uniforme de marechal
Rondon em uniforme de marechal
Rondon jovem na Amazônia, antes de 1891
Rondon jovem na Amazônia, antes de 1891
Rondon junto ao instrumento de levantamento topográfico
Rondon junto ao instrumento de levantamento topográfico
Integrantes da Comissão Rondon
Integrantes da Comissão Rondon
Índios jarus junto às estações telegráficas da Seção Norte
Índios jarus junto às estações telegráficas da Seção Norte
Rondon em contato pacífico com povos indígenas
Rondon em contato pacífico com povos indígenas
Distribuição de presentes aos parecis
Distribuição de presentes aos parecis
Rondon mostra um relógio a índios cainãs
Rondon mostra um relógio a índios cainãs
Rondon e um chefe bororo
Rondon e um chefe bororo
Theodore Roosevelt e o marechal Rondon
Theodore Roosevelt e o marechal Rondon
Mapa da rota da Expedição Roosevelt-Rondon
Mapa da rota da Expedição Roosevelt-Rondon
Roosevelt e Rondon durante a expedição, 1914
Roosevelt e Rondon durante a expedição, 1914
A lancha Juruena na baía da Caissara
A lancha Juruena na baía da Caissara
Pico da Pedra de Cucuí, em São Gabriel da Cachoeira
Pico da Pedra de Cucuí, em São Gabriel da Cachoeira
Marco do Morro da Boa Vista, fronteira Brasil-Bolívia
Marco do Morro da Boa Vista, fronteira Brasil-Bolívia
Forte de Coimbra, no rio Paraguai
Forte de Coimbra, no rio Paraguai
Rondon e seu Estado-Maior no Paraná e em Santa Catarina
Rondon e seu Estado-Maior no Paraná e em Santa Catarina
Cédula de mil cruzeiros com a efígie de Rondon, 1990
Cédula de mil cruzeiros com a efígie de Rondon, 1990

Linha do Tempo

1865

Nascimento em Mimoso, Mato Grosso.

1881

Assenta praça com destino à Escola Militar da Praia Vermelha.

1890

Entra nas comissões telegráficas de Mato Grosso.

1907

Assume a Comissão de Linhas Telegráficas de Mato Grosso ao Amazonas.

1910

Organiza o Serviço de Proteção aos Índios, criado pelo Decreto nº 8.072.

1914

Codirige com Theodore Roosevelt a descida do rio da Dúvida.

1915

Conclui a linha telegráfica: 4.502 km em Mato Grosso.

1919

Promovido a general.

1925

Indicado por Albert Einstein ao Prêmio Nobel da Paz.

1927

Início da Inspeção de Fronteiras, em três campanhas até 1930.

1955

Recebe o bastão de marechal, aos noventa anos.

1958

Falecimento no Rio de Janeiro, em 19 de janeiro.

Consultar as 5 referências utilizadas
  1. SÁ, Dominichi Miranda de; SÁ, Magali Romero; LIMA, Nísia Trindade. "Telégrafos e inventário do território no Brasil: as atividades científicas da Comissão Rondon (1907-1915)". História, Ciências, Saúde — Manguinhos, v. 15, n. 3, 2008. SciELO
  2. ROHTER, Larry. Rondon: uma biografia. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019.
  3. VIVEIROS, Esther de. Rondon conta sua vida. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2010 (1ª ed. 1958). PDF da Biblioteca do Exército
  4. FERREIRA, Mirian Rejane Guimarães. Os trabalhadores da Comissão Rondon: violência, esquecimento e silêncio nos caminhos do telégrafo (1907-1915). Dissertação de mestrado, UFMT, 2007. Biblioteca da Funai
  5. SIQUEIRA, Elizabeth Madureira; MACHADO, Fernanda Quixabeira; ÁVILA, Luciwaldo Pires de. O Brasil pelos Brasileiros: relatórios científicos da Comissão Rondon. Cuiabá: Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso.