Retrato de Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias
Referências Históricas · Brasil Imperial

Luís Alves de Lima e Silva

Duque de Caxias

25 de agosto de 1803 · 7 de maio de 1880

Patrono do Exército Brasileiro e principal responsável pela preservação da unidade nacional no século XIX.

Por que estudar Luís Alves de Lima e Silva?

Apresentação

Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, é a figura mais completa da história militar brasileira e uma das mais decisivas para a sobrevivência do próprio Estado nacional. Soldado desde a adolescência, comandante em dezenas de campanhas, senador, ministro e duas vezes presidente do Conselho de Ministros, Caxias atravessou quase sete décadas de vida pública sem jamais abandonar o serviço ao Brasil.

Seu apelido, o Pacificador, resume apenas uma parte de sua trajetória. O que define Caxias de maneira mais precisa é a combinação entre capacidade militar excepcional e absoluta lealdade às instituições. Em cada crise que o Brasil enfrentou, e foram muitas, ao longo do conturbado século XIX, foi a ele que o Império recorreu.

Como todo personagem de seu tempo, Caxias atuou dentro das contradições políticas e sociais do Império, mas sua importância histórica está na forma como associou força, disciplina e senso institucional em momentos decisivos para a unidade nacional.

Patrono do Exército Brasileiro desde 1962, Caxias permanece como símbolo de disciplina, unidade e devoção ao Estado. Não por decreto, mas porque sua vida inteira foi a encarnação desses valores.3

Caxias, 1878
Luís Alves de Lima e Silva, 1878
Caxias, 1857
Luís Alves de Lima e Silva, 1857

Origens e Formação

Luís Alves de Lima e Silva nasceu em 25 de agosto de 1803 em uma fazenda chamada São Paulo, no território do município de Magé, então capitania do Rio de Janeiro. Seu pai, Francisco de Lima e Silva, e seus tios eram figuras proeminentes do Exército Imperial. A carreira militar não foi escolha. Era herança de família que, em duas gerações, havia subido de comuns à nobreza portuguesa pelo serviço às armas.1 4

Aos cinco anos foi alistado como cadete do 1º Regimento de Infantaria, de forma honorífica, por ser filho de oficial. Estudou na Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho a partir de 1818, onde aprendeu aritmética, álgebra, geometria, táticas, estratégias e reconhecimento de terreno. Participou das campanhas da Independência na Bahia em 1823 e da Guerra da Cisplatina entre 1825 e 1828, acumulando experiência de campo antes mesmo de completar trinta anos.

Ainda jovem, foi escolhido por Dom Pedro II como instrutor de esgrima e hipismo. A proximidade gerada pelo ensino transformou-se em amizade duradoura. O imperador disse anos depois que considerava Caxias "leal e meu amigo", relação que marcaria toda a trajetória política e militar dos dois.

Sua ascensão foi rápida, mas nunca gratuita. Cada patente foi conquistada em campo, sob fogo, liderando homens em situações de risco real. Essa trajetória forjou nele um perfil de comandante que combinava rigor disciplinar com respeito genuíno pela tropa, característica que o distinguiu ao longo de toda a vida.

As Campanhas de Pacificação

O Brasil das décadas de 1830 e 1840 era um país em permanente risco de fragmentação. A abdicação de Dom Pedro I em 1831 abriu um período de instabilidade profunda, com revoltas eclodindo em praticamente todas as províncias. Foi nesse contexto que Luís Alves de Lima e Silva se tornou o principal instrumento de coesão territorial do Império.

Caxias, 1841
Luís Alves de Lima e Silva, 1841

Balaiada (1838–1841). Enviado ao Maranhão para sufocar a revolta conhecida como Balaiada, conduziu a campanha com eficiência e relativa contenção. Ao encerrar o conflito, adotou uma postura incomum para a época: defendeu a anistia aos combatentes rebeldes, recusando-se a transformar a vitória militar em massacre político. Elevado a Barão por Dom Pedro II, recebeu a rara honra de escolher o nome do próprio título, e escolheu Caxias, em homenagem à segunda cidade mais rica do Maranhão, que havia recapturado dos rebeldes.

Sabará
Sabará, por Rugendas, c. 1845

Revoltas Liberais (1842). Em maio de 1842, liberais das províncias de São Paulo e Minas Gerais se rebelaram contra o governo imperial. Caxias foi nomeado vice-presidente e comandante das armas de São Paulo, marchando depois para Minas Gerais. A rebelião foi suprimida em agosto, com rapidez e sem excesso de violência. Dom Pedro II o nomeou ajudante de campo e o elevou a Conde de Caxias.

Farroupilha (1842–1845). A mais longa e complexa das revoltas brasileiras do período, a Guerra dos Farrapos durava dez anos quando Caxias assumiu o comando no Rio Grande do Sul. Dom Pedro II, então com dezesseis anos, lhe deu uma ordem direta: "Acabe com esta revolução, assim como acabou com as outras." Sua abordagem foi simultaneamente militar e política: combateu onde foi necessário, mas negociou com habilidade, oferecendo honras e anistia aos líderes farroupilhas. O fim do conflito foi declarado em março de 1845. Tornou-se Marquês de Caxias.

Caxias
Luís Alves de Lima e Silva

Revolução Praieira (1848–1849). Em Pernambuco, uma revolta de caráter liberal e federalista ameaçava a estabilidade do norte do país. Caxias coordenou as operações que encerraram o movimento sem prolongar desnecessariamente o conflito.

Em todas essas campanhas, um padrão se repete: Caxias não chegava apenas para vencer. Chegava para reconstruir a autoridade do Estado, pacificar os ânimos e reintegrar os derrotados sempre que possível. Era essa dimensão política da liderança militar que o tornava insubstituível.

A Guerra do Prata

Navio Dom Afonso
O navio Dom Afonso, reconhecimento de Buenos Aires

Juan Manuel de Rosas, ditador da Confederação Argentina, declarou guerra ao Brasil em 1851, dando início à Guerra do Prata. Caxias foi nomeado comandante geral das forças terrestres brasileiras e conduziu o exército ao Uruguai em setembro daquele ano.

A vitória veio na Batalha de Monte Caseros, em 3 de fevereiro de 1852, quando os aliados derrotaram Rosas, que fugiu para o Reino Unido. Durante a campanha, Caxias fez pessoalmente o reconhecimento da área de Buenos Aires a bordo do navio a vapor Dom Afonso, avaliando posições para um eventual ataque anfíbio. Como recompensa, foi elevado a Marquês de Caxias.1

A Guerra do Paraguai

Caxias liderando as tropas
Caxias liderando as tropas na Dezembrada

A Guerra do Paraguai (1864–1870) foi o maior conflito armado da história da América do Sul e o teste mais severo já imposto ao Brasil como nação. Quando Caxias assumiu o comando supremo das forças brasileiras, em 1866, a situação era crítica: o Exército estava desorganizado, a logística era precária, as baixas haviam sido enormes e o moral da tropa estava destruído.

Tinha 63 anos. Assumiu assim mesmo.

Sua primeira medida foi reorganizar o Exército do zero. Restabeleceu a disciplina, reestruturou o comando, reorganizou o abastecimento e reconquistou a confiança da tropa. Só então retomou as operações ofensivas.

A campanha de 1867 e 1868 foi decisiva. A travessia do Chaco e a manobra de Humaitá, que contornou pela retaguarda a mais poderosa fortaleza paraguaia, são consideradas até hoje exemplos de planejamento estratégico de alto nível. Humaitá caiu em agosto de 1868. Em dezembro do mesmo ano, Caxias lançou a sequência de batalhas conhecida como Dezembrada, com Itororó, Avaí e Lomas Valentinas, que destruiu o núcleo central do Exército paraguaio em menos de três semanas.

Caxias, 1869
Luís Alves de Lima e Silva, 1869

Na batalha de Itororó, quando as tropas brasileiras começaram a recuar em desordem diante do fogo inimigo, Caxias desembainhou a espada, avançou a cavalo em direção à ponte sob fogo cerrado e gritou: "Sigam-me os que forem brasileiros!" As unidades se reagruparam, o ataque liderado por ele em pessoa sobrepujou as posições paraguaias. Vários homens ao seu lado morreram. Seu cavalo também.

Com Assunção ocupada em janeiro de 1869, Caxias considerou cumprida a missão militar e partiu para o Brasil. A guerra ainda continuaria por mais um ano, mas a sua parte, a parte decisiva, estava feita.

Foi elevado a Duque de Caxias, a mais alta distinção nobiliárquica concedida pelo Império do Brasil. Era o único não membro da família imperial a ostentar esse título.1

O Estadista

A dimensão política de Caxias é frequentemente ofuscada pela dimensão militar, mas foi igualmente relevante. Senador do Império por décadas, ele participou ativamente dos debates legislativos e foi uma voz de peso nas questões institucionais do país.

Presidiu o Conselho de Ministros em dois momentos distintos: entre 1856 e 1857, e novamente entre 1875 e 1878, já com mais de setenta anos. Em ambas as ocasiões, sua presença no cargo tinha uma função estabilizadora: era o nome capaz de agregar apoio político e transmitir confiança institucional em momentos de tensão.

Era membro do Partido Conservador, mas sua atuação nunca foi estreitamente partidária. Caxias entendia a política como extensão do serviço ao Estado, não como arena de disputa por poder pessoal. Essa postura, aliada ao prestígio militar, fazia dele uma figura acima das facções, respeitado por conservadores e liberais, pelo Imperador e pela tropa.

Morreu às 23 horas do dia 7 de maio de 1880, na fazenda Santa Mônica, perto da cidade de Valença, interior da província do Rio de Janeiro, aos 76 anos, ainda senador, ainda servidor. Pedro II, seu amigo de quase meio século, ficou profundamente entristecido.

Caxias, 1875
Luís Alves de Lima e Silva, 1875
Caxias, 1877
Luís Alves de Lima e Silva, 1877

Legado e Patrono do Exército

Monumento ao Duque de Caxias
Monumento ao Duque de Caxias, por Victor Brecheret

Caxias não deixou um livro, uma doutrina escrita ou um manifesto político. Deixou uma vida. E foi essa vida, integralmente dedicada ao serviço público, às instituições e à unidade do país, que se tornou o seu legado.

Curiosamente, sua reputação não foi sempre a que conhecemos. Nos anos seguintes à morte, a figura militar mais celebrada era Manuel Luís Osório, o Marquês do Herval. Caxias só começou a ser reconhecido como a principal figura militar da história brasileira por volta da década de 1920. Em 1925, seu nascimento foi declarado o Dia do Soldado. Em 1962, o Exército o proclamou oficialmente seu Patrono.

Com o tempo, seu nome transcendeu a biografia. O termo popular "caxias" passou a designar aquele que segue as normas sem desvio nem evasão, síntese involuntária de tudo que ele representou em vida. Seu nome batiza a cidade de Caxias do Sul, Caxias no Maranhão, dezenas de ruas, praças e instituições em todo o Brasil.

No contexto do Movimento Brasil Soberano, Caxias representa algo específico e insubstituível: a ideia de que a soberania não se declara apenas, ela se defende, se constrói e se preserva, muitas vezes a um custo alto, com disciplina, persistência e absoluta lealdade ao Estado nacional.

Enquanto José Bonifácio fundou intelectualmente a nação e o Marquês de Olinda consolidou suas instituições, foi Caxias quem garantiu, repetidas vezes e com a própria vida em risco, que o Brasil permanecesse Brasil.

Acervo & Documentação1 2

Títulos e Honras

Nobreza

Barão de Caxias18 jul 1841
Conde de Caxias25 mar 1845
Marquês de Caxias26 jun 1852
Duque de Caxias23 mar 1869

Ordens Honoríficas

Imperial Ordem do Cruzeiro do SulGrã-Cruz
Imperial Ordem da RosaGrã-Cruz
Imperial Ordem de Pedro IGrã-Cruz
Imperial Ordem de São Bento de AvisGrã-Cruz
N. Sra. da Conceição de Vila ViçosaGrã-Cruz · PT

Condecorações Militares

Medalha da Guerra de Independência
Medalha do Exército do Estado Oriental do Uruguai
Medalha da rendição em Uruguaiana
Medalha de Bravura
Medalha das operações na Guerra do Paraguai

Cargos e Membros

Conselho de EstadoMembro
Instituto Histórico e Geográfico BrasileiroMembro
Supremo Conselho Militar e de JustiçaMembro
Ajudante de campo do Imperador
Veador do Imperador

Galeria

Caxias, 1841
Luís Alves de Lima e Silva, 1841
Caxias, 1857
Luís Alves de Lima e Silva, 1857
Caxias, 1860
Luís Alves de Lima e Silva, 1860
Caxias, 1869
Luís Alves de Lima e Silva, 1869
Caxias, 1875
Luís Alves de Lima e Silva, 1875
Caxias, 1877
Luís Alves de Lima e Silva, 1877
Caxias, 1878
Luís Alves de Lima e Silva, 1878
Caxias
Luís Alves de Lima e Silva
Caxias
Luís Alves de Lima e Silva
Caxias liderando as tropas
Ilustração de Caxias liderando as tropas
Sabará
Sabará, por Rugendas, c. 1845
Navio Dom Afonso
O navio Dom Afonso
Pantheon de Caxias
Pantheon de Caxias, Rio de Janeiro
Monumento Brecheret
Monumento ao Duque de Caxias, por Victor Brecheret

Linha do Tempo

1803

Nascimento em 25 de agosto, na fazenda São Cristóvão, Rio de Janeiro.

1813

Incorporado como praça ao Exército Imperial, aos dez anos.

1823

Participa das campanhas de consolidação da Independência na Bahia.

1825

Guerra da Cisplatina (atual Uruguai). O Brasil perde a província em 1828, que se torna o Uruguai independente.

1838

Comanda as operações contra a Balaiada no Maranhão. Torna-se Barão de Caxias.

1842

Suprime a Revolta Liberal em São Paulo e Minas Gerais. Torna-se Conde de Caxias.

1846

Inicia mandato como senador do Império, representando o Rio Grande do Sul.

1845

Encerra a Guerra dos Farrapos com o Acordo de Poncho Verde. Torna-se Marquês de Caxias.

1848

Operações contra a Revolução Praieira em Pernambuco.

1856

Primeira presidência do Conselho de Ministros.

1866

Assume o comando supremo das forças brasileiras na Guerra do Paraguai.

1868

Manobra de Humaitá e a Dezembrada. Virada decisiva da guerra.

1869

Ocupa Assunção. Pede demissão do comando. É elevado a Duque de Caxias.

1875

Segunda presidência do Conselho de Ministros.

1880

Falecimento em 7 de maio, na fazenda Santa Mônica, em Valença, Rio de Janeiro, aos 76 anos.

1962

Proclamado Patrono do Exército Brasileiro.

Consultar as 4 referências utilizadas
  1. SOUZA, Adriana Barreto de. Duque de Caxias: o homem por trás do monumento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, 611 p. Biografia baseada em tese de doutorado em História Social pela UFRJ.
  2. SOUZA, Adriana Barreto de. "Biografando o Duque de Caxias: notas de uma pesquisa". CPDOC, Fundação Getúlio Vargas
  3. BRASIL. Decreto nº 51.429, de 13 de março de 1962, que consagra o marechal Luís Alves de Lima e Silva, Duque de Caxias, como Patrono do Exército Brasileiro.
  4. EXÉRCITO BRASILEIRO. A vida de Caxias. Centro de Estudos de Pessoal e Forte Duque de Caxias